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“Eu quero que você seja o meu pai e você a minha mãe!”

Frase dita por um garoto de 09 anos que está em uma instituição de acolhimento de Curitiba. 

 
Era uma tarde de domingo, em uma chácara na Região Metropolitana de Curitiba, durante a edição de 2024 da Festa Dindo. Todos estavam sentados à mesa tomando café, quando essas palavras surpreenderam. Ouvir isso de uma criança é sempre muito difícil, ainda mais quando se leva em consideração a situação em que ela se encontra, já que só são afastadas de suas famílias biológicas como último recurso.

Mas, se no Brasil existem cerca de 36 mil pessoas interessadas em adotar, por que ainda há quase cinco mil crianças e adolescentes na lista de espera?​​

A resposta é mais simples do que parece: essa discrepância é resultado do desencontro entre os perfis que os adotantes buscam e os perfis das crianças e adolescentes que esperam ser adotados. De acordo com dados de setembro de 2024 do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), menos de 6% dos brasileiros cadastrados aceitam crianças e adolescentes a partir de 8 anos. O menino de 9 anos que pediu por uma família, com palavras tão carregadas de emoção, é um dos milhares de pequenos que fazem parte dessa estatística, que revela que 70% das crianças aptas para adoção têm entre 8 e 17 anos. Essa desigualdade de perfis fica ainda mais evidente ao analisarmos os dados de adoção de 2019 a outubro de 2024, período em que 80% das adoções envolveram crianças de 8 anos ou menos.

Nos últimos anos, o SNA possibilitou que 24.129 crianças fossem inseridas em novas famílias. Só nas regiões Sul e Sudeste foram realizadas 18.221 adoções, sendo 5.855 no estado de São Paulo, que apresenta o maior índice.
 

 

Porcentagem de meninas e meninos adotados entre 2019 e 2023:

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) - 17/10/24


Porcentagem de meninas e meninos adotados entre 2019 e 2023:
 

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) - 17/10/24

Sobre
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“Esse novo vínculo vem preencher esse espaço, para que a criança não fique nesse vazio.” - Andreia Alfaz (Assistente Social).

Porém, devido ao grande número de crianças e adolescentes que não são adotados por causa da idade ou de características atípicas, foi criado o Apadrinhamento Afetivo, que no Paraná recebeu o nome de “Projeto Dindo”. Este projeto tem uma relevância muito significativa na vida das crianças que estão em acolhimento institucional. De acordo com a assistente social Andreia Alfaz: “Muitas vezes, o apadrinhamento corresponde a uma fase processual em que essas crianças estão sem nenhuma definição, sem perspectiva de reintegração com a família biológica ou de uma possível adoção. Então, esse novo vínculo vem preencher esse espaço, para que a criança não fique nesse vazio.”

O Projeto Dindo oferece uma nova perspectiva para essas crianças, possibilitando que elas vivenciem situações e contextos familiares que talvez nunca tenham tido a chance de experimentar. Esse processo pode ocorrer de três formas:

 
O individual, que acontece quando o afilhado convive com a família do padrinho, especialmente em fins de semana, feriados e férias.
No apadrinhamento em grupo, o padrinho convive com um grupo pequeno de crianças ou adolescentes para fazer atividades. Esses encontros podem ser na própria instituição de acolhimento ou em locais externos.
Já, no caso do apoio financeiro, o padrinho contribui com recursos econômicos para que o afilhado possa realizar cursos, atividades, frequentar médicos e fazer tratamentos.
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Para participar, é necessário preencher alguns requisitos, como:
  • Ter mais de 21 anos;
  • Participar do Curso Preparatório para Padrinhos/Madrinhas, junto com o(a) companheiro(a), caso tenha;
  • Realizar o cadastro, em que são analisados dados e antecedentes criminais;
  • Passar por uma entrevista com a psicóloga ou assistente social do programa;
  • Iniciar visitas a uma ou mais instituições de acolhimento.
Ficou interessado e quer saber mais sobre como apadrinhar uma criança ou um adolescente? Acesse o site oficial.

 
Procuram-se famílias para as crianças e adolescentes, e não filhos para as pessoas habilitadas.” - Karina Dias (Advogada).

Mas, independente da idade, o processo de adoção é o mesmo. A advogada e vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Paraná, Karina Dias, destaca que, caso alguém deseje adotar, deve procurar a Vara da Infância e Juventude da cidade em que reside e passar por todo o processo que o tornará apto. Ela também reforça: “As crianças e adolescentes são o centro dos processos de adoção. Procuram-se famílias para as crianças e adolescentes, e não filhos para as pessoas habilitadas.”​
 
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E como fica a questão psicológica das crianças e adolescentes que estão em uma instituição de acolhimento?
 
A doutora em neuropsicologia forense Ana Paula Silva, reforça que: “Criança que vai para casa de acolhimento, é estigmatizada. E isso é reforçado na escola, os amigos na escola dizem, por exemplo: AH VOCÊ É DE CASA DE ACOLHIMENTO… Então isso vira um adjetivo pejorativo, que é pior do que qualquer xingamento. E quando eles são adotados, aí o título muda e vira: O ADOTADO”.

Ela ainda destaca que o acompanhamento psicológico é muito importante para que essas crianças e adolescentes não tomem isso como sua própria identidade, pois isso não significa o que ela é.
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“Hoje, com esses projetos, eles têm um suporte fundamental para essa fase.” - Jordana Varassin (Psicopedagoga).
 
Então, o que acontece com os adolescentes que completam a maioridade e não são adotados?

Há cerca de cinco anos, foram criadas casas para os jovens adultos provenientes de instituições de acolhimento. A Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS) oferece apartamentos para meninos e meninas que atingem a maioridade e não foram adotados. No entanto, a maioria dos projetos voltados para esses jovens é desenvolvida pela iniciativa privada. A psicopedagoga Jordana Varassin afirma: “Antigamente, os adolescentes e jovens adultos, ao saírem das instituições, não tinham um apoio para fazer essa transição. Hoje, com esses projetos, eles têm um suporte fundamental para essa fase.”

Jordana também destaca que esses projetos são essenciais, pois auxiliam os jovens a se adaptarem à vida fora da instituição, onde tudo é controlado e há pessoas cuidando de todos os detalhes. Ao saírem e ingressarem nesses projetos, eles começam a aprender a cuidar de si mesmos: cozinham, lavam roupas, mantêm seu espaço. E o mais importante é que, embora o processo dependa da sua própria motivação, há uma pessoa próxima para orientá-los e ajudá-los a desenvolver a autonomia e a maturidade necessárias para avançar.


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